
Stream B4 — Water Loss 2026
Engenheira da Sabesp que transformou 149 DMAs no papel em um programa real de comissionamento — e descobriu que apenas 7% das áreas de controle de vazão e pressão pré-existentes estavam de fato operando no campo.
Sobre a palestrante
Cintia Matsuguma é engenheira da Sabesp, da unidade EFCO (a área de controle de vazão e pressão da companhia em São Paulo). Sua apresentação na Stream B4 do Water Loss 2026 — 'Comissionamento de Áreas de Controle de Vazão e Pressão' — abriu com uma auditoria que esfriou a sala: dos 149 DMAs declarados e inspecionados, apenas 11 (7%) estavam de fato operando após três a quatro anos de implantados. Os outros 93% pareciam DMA no GIS mas não se comportavam mais como tal. A palestra recolocou setorização como prática contínua de engenharia, e não como obra civil de uma vez.
A Sabesp é a maior companhia de saneamento do Brasil, com operação em todo o estado de São Paulo dividida em quatro regiões. O time da Cintia integra a EFCO, programa corporativo de controle de vazão e pressão que opera há cerca de seis anos e já reúne mais de 700 profissionais.
SabespEFCOA espinha dorsal metodológica é a Cruz de Lambert de quatro pilares — combinando gestão de perdas reais e aparentes com gestão de infraestrutura e gestão de pressão. A palestra foca o eixo vertical (setorização + detecção ativa + gestão de pressão + agilidade de reparo) e mostra como o comissionamento de DMA ancora os quatro.
LambertVerticaisA setorização não pode ser tratada só como obra civil — é prática permanente de engenharia.
Tese central
O diagnóstico mais incômodo da auditoria EFCO: um DMA tecnicamente entregue e aprovado há três anos, estatisticamente, quase com certeza não está operando hoje. Macromedidor sem telemetria, VRP sem calibração, sem comunicação com o CCO — a rede está cheia de DMA zumbi.
AuditA proposta da Cintia: entre 'construir o DMA' e 'operar o DMA' tem que existir uma etapa formal de comissionamento — verificar ativos, calibrar macromedidores e VRPs, validar transmissão de dados com o CCO, rodar baseline. Pular isso produz a taxa de sucesso real de 7%.
CommissioningMesmo um DMA bem comissionado degrada sem governança contínua: responsáveis definidos, rotinas de manutenção, regras de manobra, indicadores e registro de intervenções. A palestra encerra exatamente assim: 'manutenção depende de governança contínua — responsáveis, rotinas, regras de manobra, indicadores, registro de intervenções'.
GovernanceDos 149 DMAs declarados, apenas 11 estavam de fato operando — 7% três a quatro anos depois da implantação.
Números da auditoria EFCO
Cintia detalhou o comissionamento ativo a ativo de dois DMAs recuperados. Telemetria conferida, macromedidores e transdutores de pressão calibrados, transmissão com o CCO validada, e ponto de operação dos VRPs ajustado. A auditoria revelou perdas de carga grandes entre VRP e ponto de monitoramento do DMA, com pressões 10 mca abaixo do esperado — e, uma vez corrigido, a economia pagou todo o investimento em oito meses.
VRP não calibrado não está fazendo gestão de pressão — está adicionando perda de carga na sua conta.
Metodologia de comissionamento
Puxar dados do CCO para cada DMA candidato, listar os macromedidores, VRPs, pontos de monitoramento e verificar se a janela de transmissão com o CCO está aberta e limpa. Essa varredura inicial já mostra quais DMAs são só papel.
SCADACCOCruzar limite geográfico e topológico contra o projeto. Comparar pressão medida na saída do VRP contra a pressão no ponto de monitoramento do DMA — gaps grandes sinalizam problema de perda de carga, by-pass não documentado ou tubulação subdimensionada.
TopologyRodar step-tests, isolar sub-zonas, identificar vazamentos não visíveis, e em seguida re-sintonizar o set point de operação do VRP. O caso Sabesp achou VRPs que podiam operar entre 10 e 11 mca com folga — convertendo imediatamente em redução de vazamento.
Step-testPRVCasos comparados
O primeiro DMA recuperado tinha pressão no ponto de monitoramento ~30 mca quando o esperado era ~40 mca. O gap oculto de 10 mca apontou para uma mudança de rede pós-projeto que ninguém atualizou. Re-sintonizado o VRP, a pressão estabilizou e o DMA passou a entregar MNF confiável pela primeira vez.
DMA-1O segundo caso tinha monitoramento em torno de 36 mca em vez dos 13 mca esperados — quase 3x para fora. O VRP havia perdido calibração; o macromedidor tinha gap de transmissão. Comissionados os dois, o DMA voltou ao ponto de projeto e a equipe passou a rodar detecção com confiança.
DMA-2Juntos, os dois DMAs somaram 1.062.000 m³/ano de produção evitada. R$ 1,4 milhão de investimento em comissionamento e manutenção foi pago em 8 meses a R$ 2/m³ de custo evitado. O caso financeiro torna o comissionamento óbvio para qualquer portfólio com DMAs dormentes.
PaybackInsights da palestra
Dos 149 DMAs auditados, só 11 operavam. O número é um banho de água fria em qualquer utility que reporta contagem de DMAs no seu plano de perdas — a maioria dos números nesses relatórios fala de ativo instalado, não de ativo operando.
Cintia traça uma linha clara: cortar a fita e assinar o termo de obra não é comissionamento. Comissionamento é verificar ativo, calibrar, validar telemetria e medir baseline — e a Sabesp agora trata isso como fase separada, contratada.
VRP descalibrado não falha barulhento — silenciosamente mantém a pressão errada por anos, gerando vazamento crônico e perda de carga. A auditoria EFCO mostra que calibração de VRP merece SLA próprio, separado da manutenção civil.
Macromedidor instalado mas desconectado do CCO é dado invisível para a concessionária. Cintia frisa: verificação (e re-verificação) de telemetria precisa rodar em cadência definida com responsável nomeado — senão a realidade de campo silenciosamente desvia.
O caso mostra R$ 1,4M pago em 8 meses. Para utility que adia comissionamento de DMA citando restrição orçamentária, a resposta é direta: o ganho financeiro paga a operação em menos de um exercício — não há objeção orçamentária real.
A frase de encerramento resume a filosofia: manutenção dos resultados depende de governança contínua com responsável definido, rotinas, regras de manobra, indicadores e registro de intervenções. Sem isso, toda concessionária acaba redescobrindo seus DMAs dormentes a cada cinco anos.
Filosofia técnica
A filosofia de Cintia é a disciplina da continuidade. O saneamento brasileiro passou a última década construindo DMAs — câmaras, VRPs, macromedidores, telemetria. A próxima década é operar tudo isso. Isso exige três giros: (1) tratar comissionamento como fase contratada, não formalidade de encerramento; (2) colocar calibração e telemetria sob responsável nomeado com KPI; (3) reportar avanço de perdas em DMAs em operação, não em DMAs instalados. Sem esses giros, cada ciclo de investimento paga de novo pelo mesmo problema que o ciclo anterior achava ter resolvido.
A EFCO da Sabesp tem 700+ profissionais em quatro regiões. O playbook de comissionamento que a Cintia apresenta é desenhado para ser replicável em concessionárias de qualquer porte — os passos não exigem a escala da Sabesp, exigem a disciplina da Sabesp.
ReplicableDisciplineO giro mental que Cintia pede: DMA não é projeto entregue — é ativo que exige cuidado contínuo. Tratar como subestação, como ETA, como qualquer infraestrutura com operador nomeado e checagem semanal.
AssetCareComissionamento é a ponte que transforma DMA instalado em DMA operando.