
Cerimônia de Abertura — Water Loss 2026
Mensagem do Diretor Executivo da IWA, apresentando a visão da associação para o futuro da gestão hídrica e o papel central da redução de perdas na agenda climática.
Sobre o palestrante
Executive Director, International Water Association (IWA) — keynote speaker da plenária de abertura do IWA Water Loss 2026 (27/04, 10h22). Lidera a principal rede técnica de profissionais do setor de água no mundo, com membros em mais de 140 países. Background acadêmico — formação anterior na Universidade de Birmingham — combina-se à articulação institucional da IWA para traduzir a agenda global de water security e clima em programas operacionais de redução de perdas.
Kala lidera a International Water Association, principal rede técnica do setor de água no mundo, com membros em mais de 140 países. A IWA padroniza vocabulário (water balance, ILI, FAVAD, NRW), pública os main best-practice guides em redução de perdas e organiza specialist groups como o Water Loss Specialist Group (WLSG). Sua keynote opera como voz institucional dessa rede.
IWA140+ paísesA fala traz a perspectiva institucional da IWA sobre como utilities ao redor do mundo podem traduzir a agenda global de água segura e clima em programas práticos de redução de perdas. Defende uma reformulação radical: water loss "is a reflection of how we undervalue water" — não é falha técnica, é falha estratégica de liderança e governança.
Climate ActionLeadership"Water loss is not just leakage, it's not just inefficiency, it's a reflection of how we undervalue water."
Tese da palestra
A tese central separa dois caminhos: o vicious path (perdas altas → custos sobem → serviço deteriora → clientes desconfiam → receita cai → ativos pioram) e o virtuous path, que começa exatamente pela redução de perdas e destrava confiança, receita e investimento. "Moving from a vicious path to a virtuous one is not just a technical decision — it is a leadership decision."
Utilities mal geridas entram em uma espiral: altas perdas elevam custos, serviço deteriora, clientes ficam insatisfeitos, willingness to pay cai, manutenção é adiada e ativos se deterioram — "systems continue to weaken until they reach a point of crisis". O caminho oposto começa exatamente onde dói mais: reduzir perdas.
LiderançaSystem ThinkingCidades em que grandes parcelas da população não têm 24h de fornecimento contínuo são, frequentemente, as mesmas que mais perdem água. "Scarcity and loss are existing in the same place at the same time. There's a deep contradiction here." Sistemas que toleram a perda também toleram intermitência e quebra de pressão.
EquityService ReliabilityO Water Loss Specialist Group propôs que utilities adotem um carbon balance além do water balance. "This changes what leakage is — it stops being only a volume problem and becomes a measure of value loss." Cada gota carrega volume, energia, custo e carbono — métrica obrigatória em qualquer NRW program moderno.
CarbonValue Loss"Don't ask how much water is lost. Ask why these systems allow it to happen."
Dados apresentados
"This is how we move from data blindness to data brilliance — not by collecting more, but by finally using what we have."
Abordagem / Metodologia
A metodologia que Kala defende é Integrated Urban Water Management — olhar drinking water, wastewater e stormwater "through a single lens", como flows de qualidades diferentes dentro do mesmo sistema urbano. Três pilares práticos sustentam essa abordagem.
Drinking water, wastewater e stormwater tratados como um único sistema integrado de flows de qualidades diferentes. A pergunta não é "como capto mais água?", mas "como circulo melhor a água que tenho dentro do sistema?" — substituindo a lógica linear de captação-uso-descarte pela lógica circular de portfólio.
IUWMCircularNão usar drinking water para tudo. Cascade water reuse: drinking-grade só onde é exigido, reúso para irrigação, descarga, indústria. Maximiza produtividade do recurso e abre alternativa real ao "importar mais água" como resposta padrão a crescimento de demanda.
Cascade ReuseQuality MatchConectar dados não-estruturados (registros de manutenção, e-mails, fotos de campo) e o tacit knowledge dos operadores que "sense a leak before the sensors do" em um único sistema vivo. AI generativa como camada que abre toda a biblioteca de dados existente — não como mais um dashboard.
Generative AITacit KnowledgeCasos / Aplicações
Kala apresentou três cases concretos do framework IUWM em ação — diferentes geografias, mesma lógica de diversificação de fontes e water-packet thinking.
A cidade-Estado opera quatro fontes: água importada da Malásia, Marina Barrage (captação de chuva), NEWater (reúso de wastewater tratado a múltiplos níveis) e dessalinização do mar. Cada torneira é dimensionada para diferentes usos e níveis de risco — modelo global de portfólio de fontes.
SingaporePortfolioO West Basin Initiative trata wastewater em múltiplas qualidades sob medida — irrigação, refrigeração industrial, recarga de aquífero — em arquitetura plug-and-play. Pioneiro do conceito de "fit-for-purpose water": cada uso recebe a qualidade exata que precisa, nem mais, nem menos.
Los AngelesFit-for-PurposeChennai aplicou em 2019 o Aarakudam approach com seis fontes incluindo pedreiras desativadas como rainwater harvesting. Resposta direta à crise hídrica de 2019 da cidade — comprovação prática de que diversificação de fontes pode ser construída em meio à crise, não apenas em planejamento de longo prazo.
ChennaiCrisis ResponsePontos-chave
Cada gota carrega volume, energia, custo e carbono. Perder água tratada e bombeada por longa distância tem footprint muito maior do que perder água de baixa elevação. Priorizar intervenções pelo valor da água perdida — não só pelo volume — é a principal mudança de mindset proposta.
Não tratar redução de perdas como otimização de margem, mas como "foundation for transforming your entire system". Cada metro cúbico recuperado libera capacidade, melhora confiabilidade e cria flexibilidade — pré-requisito para qualquer adaptação a clima ou crescimento de demanda.
Não usar drinking water para tudo. Cascade water reuse: drinking-grade só onde é exigido, reúso para irrigação, descarga, indústria. Maximiza produtividade do recurso e abre alternativa real ao "importar mais água" como resposta padrão a crescimento de demanda.
Kala citou que o IWA Water Loss Specialist Group propôs que utilities adotem um carbon balance além do water balance. "This changes what leakage is — it stops being only a volume problem and becomes a measure of value loss." Métrica obrigatória em qualquer NRW program moderno.
Utilities em países em desenvolvimento adotam DMAs, sensores avançados e dashboards copiados de utilities ricas — "data gets collected but not analysed, sensors installed but not maintained, dashboards built but not used". Resultado: aparência de progresso sem realidade.
Utilities usam apenas 15% dos dados que coletam. O resto — manutenção, e-mails, fotos, tacit knowledge — fica fora do dashboard. Generative AI permite "open every book in that library" e finalmente usar tudo o que já foi coletado, sem comprar mais sensores.
Encerramento da keynote: ferramentas são poderosas, mas só funcionam quando casadas à realidade da organização que as usa. "Trust in the people who will use them. Build the systems, but make sure they can be sustained." Tecnologia não substitui capacidade — amplia onde já existe.
"Moving from a vicious path to a virtuous one is not just a technical decision — it is a leadership decision." Cortar perdas começa fora da engenharia: governança, financiamento estável, cultura institucional. A engenharia entra depois.
Filosofia / Conclusão
Síntese da keynote: redução de perdas é o ponto de entrada para transformar utilities inteiras. Não é eficiência operacional — é a porta da water security, da equity e da agenda climática. Cada metro cúbico recuperado é capacidade, energia, carbono e confiança recuperados em conjunto. A pergunta certa não é quanta água se perde, mas qual valor se perde com ela — e quem tem a coragem institucional de reorganizar o sistema em torno dessa pergunta.
A IUWM, o carbon balance, o productive use of water — todas as ferramentas técnicas existem. O gargalo é institucional. Utilities que tratam perda como inevitável também toleram intermitência, baixa pressão, exclusão. Mudar começa em governança, financiamento estável e capacity building — só então a tecnologia amplia onde já existe capacidade.
GovernanceCapacity"Trust in the people who will use them. Build the systems, but make sure they can be sustained." Encerramento da keynote: ambicioso e realista ao mesmo tempo. Evitar isomorphic mimicry, usar os 85% de dados que já existem, construir programas que funcionem na realidade local — não na ideal teórica.
SustainabilityRealismo"Trust in the people who will use them. Build the systems, but make sure they can be sustained."