
Stream A8 — Water Loss 2026
Apresentação conjunta na Stream A8 — NRW Assessment and Strategy Part A, durante o Water Loss 2026 no Rio de Janeiro. Caso de estudo: Piekary Śląskie, Polônia.
Sobre os palestrantes
Izabela Malota é presidente do conselho da empresa municipal de água e saneamento de Piekary Śląskie, no sul da Polônia. Tem 25 anos de experiência no setor de água e saneamento e é a responsável técnica pela transformação digital da utility. Wojciech Koral é professor da Universidade de Gliwice e especialista em gestão de água e gestão de pressão; é cocriador da plataforma WaterPrime. Ewelina Kilian-Blazejewska compõe o time técnico da utility. Juntos apresentaram em A8 o estudo de caso "How low can we go with water loss reduction?" — uma das histórias mais consistentes da Polônia em redução agressiva de NRW por uma cidade de porte médio com forte herança industrial.
Cidade de cerca de 50.000 habitantes na Alta Silésia (sul da Polônia), com longa história industrial ligada à mineração. A própria atividade mineira afeta diretamente o solo onde a rede de água passa, gerando estresse mecânico e tornando a contenção de perdas um desafio estrutural. A utility atende cerca de 7.000 clientes, todos com hidrômetros muito precisos.
PLMineraçãoA WaterPrime é a plataforma desenvolvida em parceria entre a utility de Piekary Śląskie e a Academia de Ciências polonesa. Integra leituras de hidrômetros, telemetria de loggers nas câmaras e balanço de DMA. O foco: controlar perdas reais e aparentes a partir do mesmo conjunto de dados, sem depender de várias ferramentas isoladas.
WaterPrimeR&D"A pergunta que guia nosso programa há anos: até onde podemos ir na redução de perdas?"
Tese central
Piekary instalou hidrômetros muito precisos em todos os 7.000 clientes e adotou leitura remota fixa via tecnologia da iot.com — uma leitura por hora. Resultado imediato: tantos dados que a equipe não conseguia transformar em decisão. Acurácia sem camada analítica não vira valor operacional.
AMIExcesso de dadoA solução foi dividir a rede em 20 DMAs, instalar loggers de telemetria em todas as câmaras e em alguns pontos colocar hidrômetros próprios da utility ao lado do hidrômetro do fornecedor para detectar erro entre as duas leituras. A diferença entre o medidor do fornecedor e o medidor próprio é parte real do balanço.
DMATelemetriaPela legislação polonesa, todo hidrômetro é trocado a cada 5 anos. Ainda assim, Piekary identificou que a diferença entre medidor do fornecedor e da utility variava — perto de zero em alguns dias, mudando entre dia e noite, e em alguns casos, sobre-registrando. Esse ponto cego só ficou visível com R&D em parceria com a Academia de Ciências.
ApparentR&D"Tínhamos muitos dados e nenhuma ferramenta para gerenciá-los. A solução começou com loggers em todas as câmaras."
Dados de aplicação
Piekary Śląskie cresceu sobre uma cidade mineira; a movimentação do solo afeta diretamente a rede. Apesar disso, a utility conseguiu reduzir o NRW de uma situação inicial em torno de 16 L/s para cerca de 7,7 L/s — equivalente a 50% do volume anterior — e o alvo agora é chegar a 4,5 L/h em todas as DMAs no próximo ano. Em uma das DMAs já se atingiu o nível de 0,7 L/s de perda real, com gráfico típico de noite e dia muito próximos de zero.
"Em uma das DMAs já estamos em 0,7 L/s de perda real. O alvo é chegar a 4,5 L/h em todas elas."
Metodologia em quatro frentes
Primeira frente: instalar válvulas redutoras de pressão (VRPs) em quase todas as câmaras, deixando apenas uma sem redução. A pressão estabilizada nas câmaras eliminou parte dos vazamentos por estresse mecânico no sistema, especialmente crítico onde o solo se mexe pela mineração.
VRPPressãoEm paralelo, infraestrutura de hidrometração automatizada (AMI) cobrindo todos os clientes — leitura horária. Cada cliente vira um sensor da rede. A integração ocorre via plataforma central, e a base de dados passa a ter granularidade horária para todo o sistema.
AMIHorárioA rede foi dividida em 20 DMAs — uma com 2 conexões e outra maior com 1.020 conexões. Em câmaras críticas, instalaram um segundo hidrômetro próprio ao lado do hidrômetro do fornecedor. A discrepância entre os dois é o sinal direto de erro de medição — um indicador de perdas aparentes que antes era invisível.
DMADual meterPlataforma cocriada com a Academia de Ciências polonesa para integrar AMI, telemetria das DMAs e balanço hídrico em uma única visão. Em vez de várias ferramentas isoladas, uma camada onde os dados conversam — e onde se vê o NRW por DMA, por hora, por consumidor.
SoftwareIntegraçãoPiekary deixa de medir NRW em percentual e passa a usar fluxo absoluto (L/s e L/h) como métrica primária. Em uma cidade pequena, percentual esconde realidade — fluxo absoluto mostra exatamente quanto sai do sistema sem retorno financeiro. O alvo de 4,5 L/h por DMA é a tradução pragmática dessa filosofia.
L/sL/hCasos comparados
Uma das DMAs tem apenas 2 conexões. Comportamento totalmente atípico: consumo médio de cerca de 750 L/dia por conexão, mas com perfis dia/noite muito diferentes. Aqui o monitoramento horário é o único caminho para entender o que é consumo real e o que é vazamento ou erro de medição.
DMA-2AtípicaA maior DMA tem 1.020 conexões e consumo médio em torno de 108 L/dia por conexão. Aqui, o gráfico de NRW está agora muito próximo de zero entre dia e noite — sinal de que o controle por loggers, VRPs e dupla medição funciona em escala. É a DMA mais bem comportada do sistema.
DMA-1020ComportadaA DMA mais complicada concentra o tronco principal e fica em torno de centenas de m³/dia de perda. O alvo é reduzir para cerca de 100 m³/dia com gestão de pressão e busca ativa de vazamentos. É a DMA que ainda puxa o NRW geral para cima — e onde a próxima onda de investimento será concentrada.
TroncoPróxima faseInsights da palestra
Piekary descobriu que dados horários por hidrômetro de 7.000 clientes geram volume que ninguém consome sem ferramenta. A conclusão foi clara: AMI sozinho é leitor caro. O salto operacional veio quando WaterPrime entrou como camada de software.
A história industrial de Piekary cria uma realidade rara — o solo se move por causa da atividade mineira, e isso afeta diretamente a integridade da rede. Estabilizar pressão deixa de ser detalhe e vira a primeira frente. Cada câmara recebeu VRP.
A regra polonesa exige troca de hidrômetro a cada 5 anos. Apesar disso, Piekary encontrou que a diferença entre medidor do fornecedor e seu próprio medidor variava entre dia e noite, e às vezes sobre-registrava. Conformidade legal não é garantia de exatidão real.
Em alguns pontos, a utility instalou um segundo hidrômetro próprio ao lado do hidrômetro do fornecedor. A diferença entre ambos vira sinal direto de erro. É uma decisão simples, barata e que torna o ponto cego visível imediatamente.
Para uma cidade pequena, percentual esconde realidade. Piekary mira em L/s e L/h por DMA. O alvo de 4,5 L/h é mensurável, comparável e força a equipe a olhar diretamente para fluxo, não para divisão entre volumes.
A WaterPrime nasce de uma cooperação real com a Academia de Ciências polonesa — não consultoria pontual. O resultado é um software desenhado a partir do problema da utility, não retrofitado de plataforma estrangeira. Vantagem competitiva não comoditizável.
O fechamento da palestra teve uma piada que pegou — o nome polonês Wojciech significa 'aquele que luta feliz'. Wojciech Koral disse: 'Estou feliz lutando contra perdas de água.' Pequena nota de humor que sintetiza o tom da utility: combate constante.
Reduzir NRW em 50% (de 16 para 7,7 L/s no caso citado) em rede que passa por subsidência mineira é resultado significativo. Mostra que mesmo em contextos hostis, a combinação certa — pressão, AMI, DMAs e software — entrega ganho material e duradouro.
Filosofia técnica
A filosofia que Piekary Śląskie traz para o palco é a do combate constante — não esperar a foto perfeita, não confiar só no percentual médio anual. A utility opera em ambiente hostil (mineração ativa muda o solo da rede) e mesmo assim escolheu uma rota incremental: estabilizar pressão, instalar AMI, dividir em DMAs com loggers, criar software próprio em parceria com a academia. O alvo de 4,5 L/h por DMA é radicalmente operacional — um número que cabe em conversa de campo, não em dashboard executivo.
Em vez de comprar plataforma pronta, Piekary investiu em P&D com a Academia de Ciências da Polônia. WaterPrime nasce dessa parceria — software desenhado para o problema real da utility, não adaptado de fora. Em uma cidade média, esse caminho cria capacidade técnica e independência tecnológica.
R&DIndependênciaIzabela Malota carrega 25 anos de carreira na utility. Wojciech Koral acompanha a operação como acadêmico. A sequência de decisões que reduziu NRW pela metade não nasceu em um ano — é fruto de continuidade técnica e governança estável. Em redução de perdas, conhecimento institucional pesa tanto quanto tecnologia.
ContinuidadeEquipe"Estou feliz lutando contra perdas de água."