
Stream B4 — Network Zoning, DMAs & Pressure Management — Water Loss 2026
Pesquisador egípcio na Friedrich-Alexander-Universität (Erlangen-Nürnberg, Alemanha). Apresenta o paper sobre uso de modelagem termo-hidráulica e medidores ultrassônicos inteligentes com sensor de temperatura para localizar vazamentos em redes de distribuição com fluxo intermitente — um método físico-baseado que dispensa a densidade de sensores de pressão exigida pelos métodos clássicos.
Sobre o palestrante
Mohamed Tolba é pesquisador egípcio que faz seu PhD na Friedrich-Alexander-Universität (FAU), em Erlangen-Nürnberg, na Alemanha. Sua bagagem combina mecânica (BSc em Mechanical Power Engineering), mecânica dos fluidos (MSc) e engenharia computacional (segundo MSc) — formação que aparece no rigor com que constrói o método apresentado em Salvador. A apresentação dele é a terceira da Stream B4 e introduz uma ideia que poucos autores no congresso defenderam com a mesma profundidade: usar a temperatura registrada por medidores ultrassônicos inteligentes (smart water meters) como sinal complementar à pressão para localizar vazamentos.
Tolba e a equipe da FAU usaram a biblioteca aberta WNTR (Water Network Tool for Resilience) como base hidráulica e implementaram, em cima dela, um modelo térmico próprio com método de volumes finitos. A escolha por código aberto não é detalhe — viabiliza que utilities pequenas e médias adotem o método sem licenças proprietárias.
WNTRVolumes finitosO grupo trabalha com smart meters fornecidos pela Diehl Metering — fabricante alemã que oferece ultrassônicos com sensor de temperatura embutido como medição lateral à de consumo. É essa abundância de dados de temperatura ramal-a-ramal que abre a janela para o método termohidráulico.
Diehl MeteringSensor TOs medidores ultrassônicos inteligentes já registram temperatura como dado lateral. Estamos só usando informação que ninguém olhava.
Tese da palestra
Tolba mostra que métodos clássicos — noise loggers, pressure transients, modelo hidráulico data-driven — assumem rede densamente instrumentada. A realidade da maioria das DMAs é inversa: 1 sensor de pressão na entrada, e talvez nada mais. Em fluxo intermitente, sinais de pressão de uma quebra viajam à velocidade do som e podem ser perdidos por taxa de amostragem de 1 minuto.
LimiteDensidadeDiferente do som, calor se propaga lentamente — em horas, não em segundos. Isso significa que, mesmo com medidores que reportam de hora em hora, ainda capturamos o sinal térmico de um vazamento. E como cada residência tem um smart meter, há centenas de pontos de leitura de temperatura por DMA.
Heat slowDensidade altaA tese matemática: quando há leak entre o reservatório e o medidor de uma residência, mais água flui pelo service pipe — e a temperatura observada se aproxima da temperatura do reservatório (não relaxa para a temperatura do solo). A amplitude desse desvio depende da posição do leak. Tolba inverte esse problema para encontrar o leak.
AmplitudeInversãoCalor não viaja na velocidade do som. Por isso conseguimos vê-lo mesmo em 1 leitura por hora.
Dados apresentados
Tolba aplicou o método em uma rede de validação dinamarquesa com 85 medidores e tubulação predominantemente em PVC. A calibração da temperatura observada vs. simulada produziu coeficiente de correlação de 0,2 — alto o suficiente para que o modelo seja útil como gerador de dados sintéticos para validar 20 cenários de leak.
Curva de detectabilidade é o mapa do que esse método consegue ver. Acima dela, encontramos o leak. Abaixo, ele se confunde com o ruído.
Abordagem técnica
A simulação hidráulica usa a biblioteca WNTR e os dados de GIS (coordenadas, comprimentos, diâmetros, conectividade) + SCADA na entrada da rede. Saída: pressão e vazão em todos os nós. É a base sobre a qual o modelo térmico opera.
WNTRGIS+SCADAA novidade: modelo térmico próprio em volumes finitos, com a temperatura do reservatório como condição de contorno de entrada e — crucial — a temperatura do solo como condição de contorno na parede do tubo. Modelos de district heating assumem solo à temperatura constante; em água potável isso falha porque a variação espaço-temporal do solo é grande.
Finite volumeSoloO parâmetro mais incerto é o comprimento do service pipe (varia, é construído por terceiros e raramente registrado). Tolba calibra o comprimento minimizando o MAE entre temperatura medida e simulada para cada residência. Estima-se também a temperatura do solo a partir do tempo de relaxamento da água parada no ramal.
CalibraçãoMAECasos / Aplicações
A rede de testes da FAU é uma DMA dinamarquesa real, dados Diehl, com 85 smart meters reportando temperatura. O modelo capturou bem a dinâmica de consumo intermitente e produziu curvas de detectabilidade para 20 cenários de leak — primeiro estudo a quantificar empiricamente os limites do método.
DenmarkValidaçãoPergunta da plateia (Gilda da Veolia LATAM): funciona em mains, não só em service pipes? Resposta de Tolba: "sim, desde que haja fluxo intermitente". A maior parte do método é independente da escala — basta ter pelo menos um medidor com sensor T por seção.
MainsIntermitenteTolba apresenta o roadmap: rede neural physics-informed que usa as equações discretizadas como loss function — finite volume graph net. Combinada com LSTM para previsão de temperatura do solo a partir de dados meteorológicos. Reduz o esforço de calibração e permite escalonar para grandes redes.
Graph netLSTMLimitação atual reconhecida: o método assume um único leak por DMA. Estender para múltiplos leaks simultâneos exige inversão multi-objetivo e mais simulações Monte Carlo. Está no roadmap, ainda não publicado.
Multi-leakRoadmapPontos-chave
A grande sacada: cada smart meter ultrassônico já carrega sensor de temperatura embutido. Tolba transforma um medidor que existia para outro propósito em sensor de leakage de baixa latência. Custo zero adicional — só software.
Modelos baseados em pressão exigem leitura por segundo para capturar transientes. Modelos térmicos funcionam com leitura por hora. Isso muda completamente o custo de implantação — utilities com smart meters horários já têm o dado.
Tolba enfatiza que copiar modelos de district heating é erro. Em água potável, a temperatura do solo varia com a profundidade do tubo, com tipo de pavimento, com estação do ano. Tratar como constante destrói a precisão do método.
Em muitas utilities o ramal é construído por terceiros (telecom, prefeitura, proprietário) e nunca registrado. Tolba transforma essa fragilidade em ponto-forte: usa a temperatura medida como sinal para calibrar o comprimento real.
A curva de detectabilidade mostra que um leak pequeno perto do medidor pode parecer um leak grande mais longe. Para diferenciar, o método precisa de mais leituras (mais janelas de stagnation) ou de mais medidores na vizinhança.
Usar WNTR como base + publicar o código térmico em open-source é deliberado: permite que utilities sem orçamento de licença adotem. Tolba sugere que parcerias com fabricantes de smart meters (Diehl, mas também outros) acelerem padronização do dado de temperatura.
Métodos acústicos sofrem em PVC (a onda atenua rápido). O método térmico não depende da propagação acústica — depende da convecção dentro do tubo. Por isso é especialmente útil em redes plásticas, onde acústica falha.
A próxima fronteira científica é integrar redes neurais informadas por física (PINN) sobre a topologia da rede via graph neural network. Reduz custo de calibração de cada DMA e permite escalonar para cidades inteiras. Tolba está construindo esse modelo agora.
Filosofia / Conclusão
A leitura final do paper de Tolba é que a próxima geração de leakage detection não vem de novos sensores caros — vem de aproveitar melhor os dados que sensores já existentes geram. Smart meters ultrassônicos colocados em massa por utilities europeias já carregam temperatura como side measurement. A diferença está em quem se debruça sobre o sinal e constrói modelo físico para extrair valor. Tolba representa um perfil emergente: engenheiro mecânico/computacional formado em universidade técnica forte, com background industrial, transitando para water utilities. É essa combinação que produz papers como este.
A maioria das utilities europeias com smart meters guarda dados de temperatura mas não os processa. O paper de Tolba é convite explícito: revisem os bancos que já têm. O custo marginal para começar é apenas computação. Em 18 meses, o framework FAU pode estar rodando sobre uma DMA brasileira.
Banco existenteComputaçãoBoa parte das DMAs brasileiras já operam em fluxo intermitente — exatamente a condição que o método de Tolba exige. Smart meters ultrassônicos começam a aparecer em programas de modernização (Sabesp, BRK, Iguá). Há janela de oportunidade real para um piloto brasileiro publicado em Water Loss 2027.
BrazilPilotNão estamos inventando sensor novo. Estamos lendo o sinal que o sensor antigo já gravava — e ninguém olhava.
Para o público brasileiro, o paper de Tolba abre uma porta: utilities que estão investindo em smart meters AMI sem pensar muito além da telemetria de consumo podem extrair valor adicional dos mesmos equipamentos com software open-source. O custo é desprezível comparado à substituição da rede. Com fluxo intermitente em boa parte do país e PVC dominante, o método pode funcionar especialmente bem em redes onde acústica clássica falha. É um caso de leitura obrigatória para quem está modernizando AMI no Norte e Nordeste.
Resumo gerado a partir da transcrição ao vivo via Nobox Translate com inteligência artificial.