
Stream B11 - Water Loss 2026 - 29 abr
Apresenta na Stream B11 (Organizational and Institutional Issues) o paper sobre fortalecimento da capacidade para a gestao da agua nao contabilizada via cooperacao internacional - case de tres municipios pilotos no Equador, com apoio da JICA.
Sobre o palestrante
Paulo Rogerio Palo e engenheiro civil especializado em modelagem hidraulica de sistemas de distribuicao de agua, com trajetoria internacional. Apresenta na Stream B11 do Water Loss 2026 (29/04, tarde) o paper que documenta o projeto de fortalecimento da capacidade para gestao de agua nao contabilizada no Equador - conduzido em parceria entre o governo equatoriano, JICA (agencia de cooperacao japonesa) e instrutores brasileiros (incluindo da SABESP / CEDAE). Tres municipios piloto serviram de laboratorio: Santo Domingo, Riobamba e um terceiro. Resultado central: capacitacao de 27 profissionais brasileiros que voltaram a aplicar metodologia em campo.
O projeto e exemplo raro de cooperacao trilateral: governo equatoriano (demanda), JICA (financiamento e tecnologia japonesa) e instrutores brasileiros (transferencia de conhecimento operacional). Tres pontas, cada uma necessaria.
TrilateralA JICA contribuiu com hardware (medidores ultrassonicos, varas eletronicas acusticas, equipamentos de macromedicao). Brasil contribuiu com know-how operacional (anos de experiencia em DMA, balanco hidrico, deteccao). Combinacao forte para Equador absorver.
JP+BR"It did not start with technology - it started with cooperation between people."
Tese central
A tese central que Paulo articula e que cooperacao internacional efetiva nao e doacao de tecnologia - e construcao de capacidade. Equipamento doado se quebra, e quem nao sabe consertar troca por outro doado. Capacitacao instalada, ao contrario, multiplica - profissional capacitado ensina o proximo. O projeto Equador foi desenhado em torno dessa tese: tecnologia foi instrumento, capacitacao foi o produto.
Historico de cooperacao internacional esta cheio de projeto onde tecnologia foi doada, equipe local nao foi capacitada, e em poucos anos o equipamento esta sucateado. O modelo do Equador inverte: capacitacao primeiro, tecnologia como ferramenta.
Anti-PatternProfissional capacitado ensina o proximo - e o proximo ensina o seguinte. Apos 3-5 anos, capacitacao instalada cobre estrutura inteira da utility. Tecnologia se desgasta, conhecimento cresce. Externalidade positiva inestimavel.
MultiplyA estrategia do projeto seguiu quatro estagios: aprender (com os instrutores), aplicar (em municipios piloto), consolidar (documentar o aprendizado) e replicar (estender para outros municipios). Cada estagio com prazo e entregavel.
4 Stages"Technology depreciates, knowledge grows - we built knowledge."
Dados e numeros
Os numeros do Equador justificam o projeto: 47 a 48 por cento de NRW (entre os mais altos da regiao), 320 milhoes de dolares de perdas anuais, perda diaria equivalente a 1.296 milhoes de litros - 50 por cento do que e produzido. Cenario critico que demanda intervencao estruturada, nao iniciativas pontuais. O projeto JICA + Brasil foi resposta a essa escala.
"Half of the water we produce in Ecuador never reaches the customer - the urgency is not academic, it is existential."
Metodologia
A metodologia que Paulo detalha foi construida em quatro estagios sequenciais. Estagio 1: profissionais equatorianos viajaram ao Brasil para treinar com instrutores da SABESP e CEDAE. Estagio 2: aplicaram em tres municipios piloto (Santo Domingo, Riobamba e um terceiro). Estagio 3: consolidaram aprendizado em metodologia documentada. Estagio 4: replicaram para outras municipalidades. Cada estagio teve prazo, entregavel e indicador.
Profissionais equatorianos viajaram ao Brasil. Treinaram com SABESP, CEDAE e outras operadoras de referencia regional. Imersao de semanas - aulas teoricas + visita de campo. Brasil e referencia regional ja consolidada.
BrazilTres municipios piloto receberam a equipe capacitada. Substituicao de medidores antigos por ultrassonicos JICA, instalacao de detectores de vazamentos doados pela JICA, mapeamento de tuberias, automacao de pressao. Resultado mensuravel rapido.
3 PilotsAprendizado dos pilotos virou metodologia documentada - manual, protocolo, indicadores. Outras municipalidades agora replicam usando a metodologia. Cooperacao internacional virou patrimonio nacional.
ReplicateCasos e descobertas
Os tres municipios piloto - Santo Domingo, Riobamba e um terceiro - foram escolhidos por porte intermediario (suficientemente grandes para ter complexidade, suficientemente manejaveis para piloto) e diversidade geografica. Cada um produziu resultado documentado: melhoria na qualidade de medicao, maior padronizacao de procedimentos, e melhor integracao entre area tecnica e comercial.
Medidores mecanicos antigos foram substituidos por ultrassonicos doados pela JICA. Vantagem: digitais, sem ponto de leitura manual, com bateria de litio que dura mais que dez anos. Reducao instantanea de erro de medicao.
MeterEquipes capacitadas no Brasil aplicaram varas eletronicas acusticas (doadas pela JICA) para identificar vazamentos nao visiveis em zonas piloto. Resultado direto: encontrar vazamentos que perdimensionavam a estimativa real de NRW.
DetectionAntes do projeto, areas tecnica e comercial dos municipios trabalhavam em silo. O projeto forcou comunicacao - balanco hidrico requer dados de medicao (comercial) e dados de producao (tecnico). Externalidade organizacional positiva.
IntegrationInsights da palestra
Os insights que Paulo deixa: cooperacao internacional efetiva privilegia capacitacao de pessoas sobre doacao de tecnologia, parceria trilateral aproveita forcas distintas (financiador + tecnologia + know-how), e o piloto e mecanismo poderoso de aprendizado quando depois consolidado em metodologia. Para WLSG, prova que reducao de NRW em paises em desenvolvimento depende de modelo de cooperacao bem desenhado.
Doar equipamento sem capacitar e investimento que se perde. Capacitar pessoas com tecnologia adequada e investimento que multiplica. O Equador ja entendeu - outras cooperacoes do hemisferio sul deveriam seguir.
Equador (demanda) + JICA (financiamento + tecnologia japonesa) + Brasil (know-how operacional) e arranjo que aproveita o melhor de cada parte. Cada um traz o que tem em excesso, recebe o que falta. Sustentabilidade do modelo.
Que profissionais equatorianos venham ao Brasil estudar e mudanca cultural na regiao. Brasil deixa de ser receptor de cooperacao internacional e vira emissor. Maturacao tecnica do setor brasileiro reconhecida.
Modelo de tres pilotos antes de generalizar e prudente - reduz risco de erro em escala. Mas o passo critico e consolidar aprendizado em metodologia documentada antes de replicar. Sem isso, replica vira improvisacao.
A JICA ja tem decadas de cooperacao em saneamento. Modelo combinado com Brasil, Mexico e outros emisores regionais pode escalar - cooperacao Sul-Sul + tecnologia Japonesa. Foro de troca para WLSG fomentar.
A metodologia documentada apos os pilotos e o ativo de longo prazo do projeto. Equipamento depreciara, profissional pode sair - mas o manual fica. Documentacao tecnica e patrimonio nacional.
Reducao de NRW no Equador, mesmo modesta, vale dezenas de milhoes de dolares. ROI da cooperacao se paga em poucos anos. Argumento financeiro para fundos como GCF, BID, World Bank financiarem projetos similares.
O caso Equador apresentado no Water Loss prova que WLSG pode ser foro de cooperacao internacional, nao apenas de troca tecnica. Conectar paises com NRW alto a financiadores e instrutores e papel natural do specialist group.
Filosofia
A filosofia que Paulo defende - construida no projeto Equador - e que cooperacao internacional bem feita e engenharia de capacidade. Nao e doacao filantropica, nao e venda de equipamento - e construcao paciente de capacidade humana e institucional no pais receptor. JICA + Brasil entregaram metodologia, nao caridade. E essa filosofia que faz a cooperacao durar alem do prazo do projeto.
Cooperacao internacional bem feita nao e gesto de generosidade unilateral - e engenharia bilateral. Receptor traz necessidade e contexto, emisor traz tecnologia e know-how. Ambos sao protagonistas, nao um beneficiario passivo.
EngineeringBrasil emisor + Equador receptor e cooperacao Sul-Sul - modelo que cresce na regiao. Ambos ja conhecem desafios estruturais (alta NRW, restricoes orcamentarias, instabilidade politica) que cooperacao Norte-Sul nao captura.
South-South"We do not give technology - we build capacity. Technology serves the capacity, not the other way around."