Apparent Losses · Smart Metering · Copasa — Water Loss 2026
Especialista brasileiro em medição na Copasa. Mostra como 15% das perdas de água vêm da imprecisão da medição e como medidores eletrônicos ultrassônicos com mais de oito anos em campo podem continuar performando como novos — no IWA Water Loss 2026 no Rio de Janeiro.
Sobre o palestrante
Wellington Jorge Santos é especialista brasileiro em medição de água na Copasa, a companhia de saneamento do estado de Minas Gerais. Ele passou dezessete anos dentro da área de engenharia operacional e especializada dedicada ao combate de perdas de água, e chega ao IWA Water Loss 2026 com uma tese precisa e incômoda: cerca de 15% de todas as perdas de água nos sistemas de distribuição não são vazamentos físicos — são perdas aparentes causadas por imprecisão de medição. A água é entregue, consumida e nunca cobrada porque o medidor na ponta do cliente está velho demais, mecânico demais, ou mal mantido demais para registrar o que de fato passou. A palestra dele enquadra medidores eletrônicos com funções inteligentes como a mitigação perene: não um piloto pontual, mas uma estratégia de upgrade no nível de frota validada por mais de oito anos de teste em campo numa única bancada DMC dentro da Copasa.
A maior parte da conversa do congresso Water Loss gravita em torno de perdas físicas — vazamentos, rompimentos, pressure management. A contribuição de Wellington é insistir que, dentro do balde de perdas aparentes, existe uma fatia estável de 15% que é puramente um problema de medição: medidores que sub-registram, desviam ao longo do tempo, ou param de capturar vazões mais baixas. Essa fatia é estrutural, previsível e — fundamentalmente — corrigível com tecnologia atual.
Apparent Losses15%Wellington abre sua palestra dizendo à plateia que vem do lado operacional da Copasa, não de um laboratório de pesquisa. Esse detalhe biográfico sozinho condiciona todo o resto que ele fala: os dados, os testes de bancada, o acompanhamento de oito anos em campo — tudo é extraído da pressão do dia a dia de operar um sistema de distribuição real, com faturamento real e reclamação real de cliente, não de um experimento sintético.
OperaçãoCopasaUm medidor que sub-registra 5% em cada cliente por dez anos não é um problema pequeno — é uma sangria permanente e invisível na base de receita da utility.
Tese central
A tese é estrutural, não tática. Wellington defende que medidores mecânicos degradam ao longo do tempo de forma determinística: rolamentos desgastam, sensibilidade a baixa vazão cai, biofilme e partículas da qualidade da água se acumulam, e o efeito cumulativo numa frota de centenas de milhares de clientes se assenta num viés estável de 15% contra a utility. Nenhuma quantidade de redução de perdas físicas vai recuperar essa receita, porque a água fluiu — ela só não foi contada. A mitigação precisa ser perene, ou seja, não pode depender de uma campanha de aferição a cada cinco anos; precisa estar embutida no próprio medidor, em eletrônica que compensa, alerta e reporta continuamente. O teste de oito anos numa DMC da Copasa fechou a prova: medidores ultrassônicos deixados nas mesmas condições operacionais mantiveram 100% de precisão enquanto unidades mecânicas na mesma rede desviaram na direção previsível.
O vocabulário importa. 'Perdas aparentes' faz executivos de utility pensarem em fraude e consumo não autorizado — termos politicamente carregados. Wellington empurra um enquadramento mais honesto: a maior parte do balde de perdas aparentes é simplesmente imprecisão de medição. Essa reformulação tira a conversa de policiar cliente e leva para atualizar parque de medidores.
FaturamentoUm medidor mecânico multi-jato ou de jato único perde sensibilidade a baixa vazão ano a ano. O drift é previsível o suficiente para ser modelado: após 10 anos em campo, o sub-registro médio em serviço residencial pode se acomodar em torno de 5–10%, mesmo em unidades bem mantidas. Na escala de frota, a aritmética produz o número manchete de 15% que Wellington defende.
DriftLifecycleA palavra-chave é perene. Um programa de aferição de bancada não é perene; é uma campanha. A mitigação que Wellington defende é uma em que o próprio medidor compensa, autodiagnostica e reporta eventos de drift. Medidores eletrônicos ultrassônicos com sensores de baixa vazão e leitura remota tornam a mitigação contínua em vez de episódica.
PereneSelf-diagnosticsA atualização em escala de frota é a única resposta honesta a um 15% estrutural. Qualquer coisa menos é erro de arredondamento tratado como estratégia.
Dados apresentados
A palestra de Wellington se ancora em números extraídos de uma única DMC da Copasa — distrito de medição — acompanhada desde 2017. A DMC corresponde a cerca de 15.000 hectares de área abastecida e um fluxo de entrada de aproximadamente 1.150 L/h de baseline. Ele instalou um conjunto de medidores nas mesmas condições operacionais: qualidade de água, perfil de pressão, ciclo de demanda diária. Após mais de oito anos, unidades ultrassônicas mantiveram 100% de precisão contra aferição de bancada; a mesma rede usando unidades mecânicas mostrou um perfil de sub-registro de 11 meses que se traduz, quando projetado na frota de clientes, na cifra estrutural de 15% de imprecisão que dá título à palestra. A substituição de mecânicos por ultrassônicos no setor de teste produziu um ganho de 5,5% de volume faturado e uma redução de 25% da perda aparente naquela DMC isolada.
O país assinou embaixo de 99% de acesso. Ninguém ainda fez a conta séria do que 15% perdidos em medição fazem com a base financeira que precisa entregar essa promessa.
Abordagem técnica
A metodologia de Wellington tem três camadas. Primeiro, uma bancada do mundo real: uma DMC da Copasa de 15.000 hectares usada como laboratório operacional contínuo desde 2017, onde cada medidor instalado é acompanhado ano a ano, periodicamente retirado, verificado em laboratório e devolvido ao serviço. Segundo, um protocolo de comparação limpo: mesma água, mesmo perfil de pressão, mesmo ciclo de demanda — só a tecnologia do medidor muda entre mecânico e ultrassônico. Terceiro, uma estratégia de substituição de frota que não finge que o parque inteiro pode ser trocado da noite para o dia; precisa ser sequenciado por faixa de consumo, coorte de idade e geografia de rota de leitura para entregar recuperação de receita mensurável dentro de ciclos orçamentários.
O movimento metodológico mais importante é recusar o teste só de laboratório. Wellington pegou uma DMC real da Copasa, com 15.000 hectares de abastecimento e 1.150 L/h de baseline, e transformou-a num laboratório de campo instrumentado. Os medidores são instalados, vividos, retirados, reverificados em bancada de aferição, e devolvidos. Oito anos desse loop produziram dados que nenhum teste sintético pode reproduzir.
DMC15.000 haO gap técnico decisivo é em baixa vazão. O consumo economicamente mais relevante de um cliente residencial — descargas de bacia, torneiras lentas, gotejamento de irrigação — acontece exatamente na faixa de vazão em que medidores mecânicos perdem precisão primeiro. Medidores ultrassônicos sem partes móveis mantêm precisão classe-1 até vazões em que mecânicos registram zero. Essa diferença sozinha é a maior parte dos 15%.
Low-flowClass-1Uma frota de centenas de milhares de medidores não pode ser trocada de uma vez. A disciplina de Wellington é sequenciar por três eixos: coortes mais antigas primeiro (maior drift, maior recuperação), clientes de maior consumo primeiro (maior impacto de receita por troca), e geografia coerente com rota (para que o rollout produza ganhos operacionais nas rotas de leitura simultaneamente). Feito direito, os primeiros 20% da troca capturam a maior parte da recuperação.
SequencingROICasos e aplicações
O caso manchete na palestra de Wellington é a própria Copasa: a companhia de saneamento do estado de Minas Gerais, com um dos maiores parques de medidores do Brasil, rodando um teste operacional de oito anos numa única DMC e usando esses dados para conduzir uma decisão de upgrade no nível de frota. Mas a implicação é nacional. Toda utility brasileira hoje negocia, sob o novo Marco do Saneamento, como financiar ao mesmo tempo a expansão de infraestrutura física para alcançar a meta de universalização de 99% e a atualização de medição em nível de frota que protege a base de receita necessária para sustentar essa expansão. Companhias estaduais e regionais — Sabesp, Sanepar, Copasa, Embasa, Caesb — e concessionárias privadas sob BRK, Aegea ou Iguá compartilham todas o mesmo problema estrutural: um parque de medidores cuja idade média torna a cifra de 15% de imprecisão praticamente certa.
A situação da Copasa é paradigmática para qualquer grande companhia estadual de saneamento: uma base de medidores instalada enorme, décadas de compra de medidores mecânicos, e um regulador que quer ver cada vez mais números no nível de frota, não anedotas no nível de piloto. O teste de oito anos numa DMC dá à Copasa exatamente o tipo de evidência auditada necessária para justificar uma linha de capex plurianual de medidor eletrônico diante do regulador estadual e dos financiadores.
EstadualCapexConcessionárias privadas sob BRK, Aegea e Iguá entraram em contratos com metas explícitas de redução de NRW. Bater essas metas só com substituição de tubulação é intensivo em capital e lento. Atualização de medição em escala de frota é rápida, tem payback previsível e permite à concessionária mostrar progresso mensurável já nos primeiros anos de contrato — política e financeiramente decisivo.
ConcessãoMarcoO caso mais duro é a utility regional ou municipal com capital limitado e parque de medidores mais velho que 15 anos. É aqui que o sequenciamento de Wellington importa mais: trocar primeiro os 5% de clientes de maior consumo pode pagar o próprio rollout em dois ciclos de faturamento, criando um loop de financiamento interno que mantém a atualização viva sem dívida externa.
MunicipalSelf-fundingPontos-chave
O maior movimento discursivo de Wellington é desemaranhar o balde de perdas aparentes. Por anos, a maioria das utilities culpou primeiro o consumo não autorizado. Os dados apontam para imprecisão de medidor mecânico como componente dominante — e essa mudança de atribuição muda todo o plano de investimento.
A frase mais citável da palestra de Wellington é o DMC de oito anos. Testes de laboratório provam que um medidor funciona no dia um. Testes de campo ao longo de quase uma década provam que o medidor ainda funciona no dia três mil. Esse horizonte é o que justifica o capex.
A razão de medidores ultrassônicos vencerem não é desempenho em alta vazão — unidades mecânicas modernas lidam bem com alta vazão. A vitória é em baixa vazão, onde acontecem descargas, torneiras lentas e gotejamentos noturnos. É também a faixa de vazão em que clientes de fato vivem, dia após dia.
O ganho de receita pós-troca de 5,5% de Wellington é o número mais operacional da palestra. Ele escala: se 200.000 clientes contribuem cada um com 5,5% a mais de volume faturado após o upgrade, o impacto tarifário cumulativo já justifica a linha de capex, antes mesmo de qualquer redução de perda aparente ser contada.
Troca de frota inteira é fantasia. A disciplina é sequenciar: coortes mais antigas primeiro, clientes de maior consumo primeiro, geografia coerente com rota primeiro. Se acertar, a primeira onda de substituições financia a próxima — se errar, o programa empaca no ano dois.
A meta brasileira de 99% de universalização elevou o custo de cada ponto percentual de receita não recuperada. Um parque de medidores que sangra 15% se torna política e financeiramente incompatível com a promessa de universalização — razão pela qual a atualização de medição está deixando de ser opcional para virar estrutural nos planos das utilities.
A palavra-chave do título da palestra — perene — carrega muito peso. Ela rejeita o modelo de aferição de bancada e exige um medidor que compensa e reporta continuamente. A mitigação precisa estar no dispositivo, não no calendário de operação.
A atualização conceitual no argumento de Wellington é parar de enxergar o medidor do cliente como dispositivo de faturamento e começar a enxergá-lo como nó na infraestrutura de dados da utility. Quando ele loga, alerta e reporta, o medidor alimenta analítica de DMA, perfilamento de demanda e atendimento simultaneamente — valor que nenhuma campanha de aferição consegue gerar.
Filosofia / Conclusão
O núcleo filosófico do argumento de Wellington é desconfortável: uma utility que não sabe o que seu parque de medidores está lendo não sabe o que seus clientes estão consumindo, o que suas perdas realmente são, nem como sua base de receita de fato se parece. Todo o resto — o Marco do Saneamento, a meta de universalização, os compromissos de redução de NRW perante reguladores e financiadores — depende de um dispositivo de medição em que a maioria das utilities parou de pensar de verdade. O DMC de oito anos dentro da Copasa não é só um experimento; é uma declaração de que uma utility séria tira o tempo de verificar, ano após ano, o que ela está lendo. Levar medição a sério é, de fato, levar a sério o autoconhecimento da própria utility. Medidores ultrassônicos eletrônicos com funções inteligentes são a resposta técnica; o movimento filosófico de fundo é a decisão institucional de parar de estimar e começar a medir.
A estratégia de uma utility — plano de capex, pedido tarifário, compromisso regulatório — só é tão honesta quanto sua medição. Um viés de 15% escondido no parque de medidores distorce silenciosamente toda planilha rio acima. A filosofia de Wellington coloca o dispositivo de medição em primeiro lugar porque toda outra decisão compõe sobre ele.
HonestidadeO salto conceitual mais profundo é parar de tratar o medidor residencial como ponto final de faturamento e começar a tratá-lo como a rede de sensores mais distribuída que a utility possui. Cada cliente é um ponto de medição, cada casa é um nó, cada leitura é uma linha de dado. Quando a filosofia muda, a atualização de medição deixa de ser despesa e vira fundação da plataforma analítica da utility.
Sensor NetworkParar de estimar. Começar a medir. Tudo o mais que uma utility diz sobre perdas, receita e universalização é hipótese até que o medidor na parede do cliente seja honesto.